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domingo, 13 de abril de 2014

VOZES DE UMA SOMBRA - Augusto dos Anjos

VOZES  DE  UMA  SOMBRA



I

Donde venho? De era remotíssimas

Das substâncias elementaríssimas

Emergindo das cósmicas matérias.

Venho dos invisíveis protozoários,

Da confusão dos seres embrionários,

Das células primevas, das bactérias.



Venho da fonte eterna das origens,

No turbilhão de todas as vertigens,

Em mil transmutações, fundas e enormes;

Do silêncio da mônada invisível,

Do tetro e fundo abismo, negro e horrível,

Vitalizando corpos multiformes.



Sei que evolvi e sei que sou oriundo

Do trabalho telúrico do mundo,

Da Terra no vultoso e imenso abdômen;

Sofri, desde as intensas torpitudes

Das larvas microscópicas e rudes,

A infinita desgraça de ser homem.



Na Terra, apenas fui terrível presa,

Simbiose da dor e da tristeza,

Durante penosíssimos minutos;

A dor, essa tirânica incendiária,

Abatia-me a vida solitária

Como se eu fora bruto entre os mais brutos.



Depois, voltei desse laboratório,

Onde me revolvi como infusório,

Como animálculo medonho, obscuro,

Te atingir a evolução dos seres

Conscientes de todos os deveres,

Descortinando as luzes do futuro.



E vejo os meus incógnitos problemas

Iguais a horrendos e fatais dilemas,

Enigmas insolúveis e profundos;

Sombra egressa de lousa dura e fria,

Grita ao mundo o meu grito que se alia

A todos os anseios gemebundos: —



“Homem! Por mais que gastes teus fosfatos

Não saberás, analisando os fatos,

Inda que desintegres energias,

A razão do completo e do incompleto,

Como é que em homem se transforma o feto

Entre os duzentos e setenta dias.



A flor da laranjeira, a asa do inseto,

Um estafermo e um Tales de Mileto,

Como existiram, não perceberás;

E nem compreenderás como se opera

A mutação do inverno em primavera,

E a transubstanciação da guerra em paz;



Como vivem o novo e obsoleto,

O ângulo obtuso e o ângulo reto

Dentro das linhas da Geometria;

A luz de Miguel Ângelo nas artes,

E o espírito profundo de Descartes

No eterno estudo da Filosofia.



Porque existem as crianças e os macróbios

Nas coletividades dos micróbios

Que fazem a vida enferma e a vida sã

Os antigos remédios alopatas

E as modernas dosagens homeopáticas

Produto da experiência de Hahnemann.



A psíquico-análise freudiana

Tentando aprofundar a alma humana

Com a mais requintadíssima vaidade,

E as teorias do Espiritualismo

Enchendo os homens todos de otimismo,

Mostrando as luzes da imortalidade.



Como vive o canário junto ao corvo

O céu iluminado, o inverno torvo

Nos absconsos refolhos da consciência;

O laconismo e a prolixidade

A atividade e a inatividade,

A noite da ignorância e o sol da Ciência.



As epidermes e as aponevroses,

As grandes atonias e as nevroses,

As atrações e as grandes repulsões,

Que reunindo os átomos no solo

Tecem a evolução de pólo e pólo,

Em prodigiosas manifestações;



Como os degenerados blastodermas

Criam a descendência dos palermas

No lupanar das pobres meretrizes,

Junto dos palacetes higiênicos

Onde entre gozos fúlgidos e edênicos

Cresce a alegre progênie dos felizes.



Os lombricóides mínimos, os vermes,

Em contraposição com os paquidermes,

Assombrosas antíteses no mundo;

É o gigante e germe originário,

Os milhões de corpúsculos do ovário,

Onde há somente um óvulo fecundo.



A alma pura do Cristo e a de Tibério,

Vaso de carne podre, o cemitério,

E o jardim rescendendo a perfumes;

O doloroso e tetro cataclismo

Da beleza louçã do organismo,

Repleto de dejetos e de estrumes.



As coisas sustanciais e as coisas ocas,

As idéias conexas e as loucas,

A teoria cristã e Augusto Comte;

E o desconhecido e o devassado,

E o que é ilimitado e o limitado

Na óptica ilusória do horizonte.



Os terrenos povoados e o deserto,

Aquilo que está longe e o que está perto;

O que não tem sinal e o que tem marca;

A funda simpatia e a antipatia,

As atrofias e a hipertrofia,

Como as tuberculoses e a anasarca.



Os fenômenos todos geológicos,

Psíquicos, científicos, sociológicos,

Que inspiram pavor e inspiram medo;

Homem! Por mais que a idéia tua gastes,

Na solução de todos os contrastes,

Não saberás o cósmico segredo.



E apesar da teoria abstrusa

Dessa ciência inicial, confusa,

A que se acolhem míseros ateus,

Caminharás lutando além da cova,

Para a Vida que eterna se renova,

Buscando as perfeições do Amor em Deus.”



À luz dessa dourada ignorância,

E com certezas lógicas, numéricas,

Notava as pestilências cadavéricas

Iguais à carne angélica da infância,



A sutilez do arminho que se veste,

A coroa aromática das flores,

Irmanadas aos pútridos fedores

De emanações pestíferas da peste!



Extravagância e excesso jamais visto,

De idéia que esteriliza e desensina,

Loucura que igualava Messalina

À pureza lirial da Mãe do Cristo.



Assim vivi na presunção que via,

Dos cumes da Ciência e do saber,

Os princípios genéricos do ser,

No pantanal da lama em que eu vivia.



Vi, porém, a matéria apodrecer,

E na individualidade indivisível

Ouvi a voz esplêndida e terrível

Da luz, na luz etérica a dizer:



II



“Louco, que emerges de apodrecimentos,

Alma pobre, esquelético fantasma

Que gastaste a energia do teu plasma

Em combates estéreis, famulentos...



Em teus dias inúteis, foste apenas

Um corvo ou sanguessuga de defuntos,

Vendo somente a cárie dos conjuntos,

Entre as sombras das lágrimas terrenas.



Vias os teus iguais, iguais aos odres

Onde se guarda o fragmento imundo,

De todo o esterco que apavora o mundo

E os tóxicos letais dos corpos podres.



E tanto viste os corpos e as matérias

No esterquilínio generalizados,

E os instintos hidrófobos, danados,

Em meio de excrescências e misérias,



Que corrompeste a íntima saúde

Da tua alma cegada de amargores,

Que na Terra não viu os esplendores

E as ignívomas luzes da virtude.



Olhos cegos às chamas da bondade

De Deus e à divinal misericórdia,

Que espalha o bem e as auras da concórdia

No coração de toda a Humanidade.



Descansa, agora, vibrião das ruínas,

Esquece o verme, as carnes, os estrumes,

Retempera-te em meio dos perfumes

Cantando a luz das amplidões divinas.”





III



Calou-se a voz. E sufocando gritos,

Filhos do pranto que me espedaçava,

Reconheci que a vida continuava

Infinita, em eternos infinitos!










Retirado do livro: Parnaso de Além Túmulo - Psicografia: Francisco Cândido Xavier

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